MANUAL DO CANDIDATO
Texto de Frei Betto, autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo
Kotscho, de "Essa Escola chamada Vida" (Ática),
entre outros livros
Trate
de se apresentar muito bem preparado para os discursos. Numa campanha
eleitoral, você deve se dedicar a obter o apoio dos amigos
e o apreço do povo. Deve constituir amizades de todos os
tipos: para ter uma boa imagem, homens com carreira e nomes ilustres
(os quais, mesmo se não têm interesse em declarar seu
voto, ainda assim conferem prestígio ao candidato); e para
garantir a proteção da lei, magistrados.
Três coisas levam os homens a se sentirem cativados e dispostos
a dar o apoio eleitoral: um favor, uma esperança ou a simpatia
espontânea. Graças aos mais insignificantes favores,
as pessoas são levadas a julgar que há motivo suficiente
para declarar seu apoio.
Quanto aos que são atraídos pela esperança,
aja de modo a parecer pronto e disposto a prestar ajuda, e também
de forma a perceberem que você é um observador cuidadoso
das tarefas executadas por eles.
O terceiro tipo é o apoio espontâneo, que será
preciso consolidar expressando agradecimentos, adaptando os discursos
aos argumentos que parecem seduzir cada adepto isoladamente, dando
mostras de retribuir-lhes a mesma simpatia, sugerindo que a amizade
pode transformar-se em íntima e habitual.
No desenrolar da campanha eleitoral, inúmeras e utilíssimas
amizades são adquiridas, porque, apesar de seus muitos inconvenientes,
ser candidato tem isso de bom: você pode, de maneira honesta
- o que é impossível no resto da vida - atrair à
amizade todos que quiser.
Volte sua atenção para a cidade inteira, todas as
associações, todos os distritos e bairros. Se você
atrair à amizade seus líderes, facilmente terá
nas mãos, graças a eles, a multidão restante.
Rastreie, vá ao encalço de homens de toda e qualquer
região, passe a conhecê-los, cultive e fortaleça
a amizade, cuide para que, em suas respectivas localidades, cabalem
votos para você e defendam sua causa como se fossem eles os
candidatos.
Homens de cidades pequenas e da zona rural, se os conhecemos pelo
nome, acham que privam de nossa amizade. O empenho dos mais jovens
em cabalar votos, visitar eleitores, trazer notícias, acompanhá-lo
nas passeatas, é algo admiravelmente importante e prestigioso.
Agora,
deve tomar o maior cuidado com o seguinte: se alguém lhe
prometeu fidelidade e você ouvir falar ou descobrir que tem
duas caras, como se diz, finja que não ouviu ou percebeu
isso; se alguém, julgando que você suspeita dele, quiser
atestar inocência, garanta com firmeza que nunca desconfiou
do apoio que recebe nem tem por que desconfiar. É fundamental
saber que intenção cada pessoa tem em mente, para
poder decidir até que ponto confiar em cada uma.
Convença-se
de que você deve ensaiar, até que pareça agir
naturalmente; com efeito, não lhe falta a cortesia apropriada
a um homem bom e gentil; porém, é preciso mais que
isso, uma certa bajulação, a qual mesmo sendo viciosa
e torpe no restante da vida, é imprescindível numa
campanha eleitoral.
De
fato, quando a bajulação é usada para corromper,
é vil; quando é para aproximar pessoas amistosamente,
não é tão execrável, é necessária,
na verdade, para um candidato cujo humor, semblante e discurso devem
mudar e se acomodar às convicções e desejos
de cada pessoa que encontra.
Outro conselho diz respeito a um pedido ao qual não seja
capaz de atender: nesse caso, negue de modo simpático ou,
então, não negue de jeito nenhum; a primeira atitude
é de um bom homem; a segunda, de um bom candidato. Todas
as pessoas, no íntimo, preferem uma mentira a uma recusa.
Cuide para que sua campanha inteira seja repleta de pompa, que seja
brilhante, esplêndida e popular, que tenha uma imagem e um
prestígio insuperáveis.
E também, nesta eleição, deve-se acima de tudo
ficar atento e gerar uma esperança otimista na política,
bem como uma opinião honorável a seu respeito. Como
o maior de todos os vícios da sociedade reside no fato de
que, quando entram em campo a corrupção e o suborno,
ela costuma esquecer-se da moral e da dignidade, trate de se conhecer
bem, isto é, perceba que você é quem pode provocar
em seus concorrentes o mais intenso pavor de um processo e uma condenação.
Faça com que eles saibam que os vigia e os observa.
Desejo que este manual às eleições seja considerado
perfeito sob todo e qualquer ponto de vista.
Nota
do autor
Não há, no texto acima, uma palavra de minha autoria.
Foi escrito por Cícero, em Roma, há 2064 anos, e endereçado
a seu irmão, Marco Cícero, candidato, em 63 a.C.,
ao mais alto cargo da república, o de cônsul, equivalente
ao de nosso presidente.
Neste resumo, que revela quão desafiador é fazer política
com transparência, adaptei-o à linguagem jornalística,
suprimindo frases e períodos. Sua íntegra, traduzida
do latim por Ricardo da Cunha Lima, encontra-se na edição
bilingüe lançada pela Nova Alexandria, intitulada "Cícero",
que reúne o "Manual do Candidato às Eleições",
a "Carta do Bom Administrador Público" e "Pensamentos
Políticos Selecionados".